domingo , 15 setembro 2019
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Entrevista com Chris Lord Alge – Parte 1

 

O renomado produtor e engenheiro de mixagem Chris Lord-Alge, concedeu uma entrevista exclusiva ao site Audiofanzine. O homem por trás de Green Day, Paramore, Deftones, Madonna, Tina Turner, James Brown, entre outros, compartilhou seus métodos de trabalho e ética de seu estúdio em Tarzana. Vamos ver o que o master tem a dizer.

 

Oi Chris, você pode nos dizer no que você está trabalhando no momento?

Atualmente estou terminando o álbum de uma banda chamada Shinedown, apenas isso. O single já está nas rádios e logo mais o CD sai. Um pouco antes de terminar Shinedown, eu mixei o Bruce Springsteen. Eu meio que co-mixei com o Bob Clearmountain. Ele mesmo mixou mas o Bruce queria que eu mixasse algumas músicas. Eu literalmente jantei com o Clearmountain ontem à noite e nós definitivamente demos umas boas risadas sobre isso!

 

Existe uma boa parceria entre os engenheiros! Eu gostaria de voltar no início da sua carreira, só para saber um pouco mais sobre como começou e as razões pelas quais você faz esse trabalho hoje. O que te levou a se tornar um engenheiro de som?? Especificamente um engenheiro de mixagem…

Tudo começou com a banda da minha mãe. Ela é musicista, toca jazz e é professora de teoria musical. Ela criou seu trio em minha casa, então aqui eu tenho 12 anos e há músicos ensaiando todos os dias na minha casa com gravadores de fita, uma pequena mesa e alguns microfones. Toda chance que eu tinha quando eles saiam para fazer show, eu podia pegar o equipamento no meu porão e começava os experimentos lá.

 

Então isso é uma coisa de família?

Sim, absolutamente. Minha mae é musicista, eu sou músico, isso era exatamente o que eu queria fazer desde que eu era jovem, e por ter alguns equipamentos para mexer um pouco, foi divertido começar por aí. Eu já tinha minha própria banda com 12 anos, e usei apenas aquele equipamento para começar a gravar. Naquele momento eu tocava teclado e depois mudei para a bateria. Eu meio que preenchia os pontos fracos da banda

 

Há alguma personalidade ou mentor que lhe mostrou o caminho ou você foi por conta própria? Alguém além da sua família que tenha te mostrando alguns truques que lhe deu vontade de fazer isso.

Sim, claro!  Então, o que aconteceu foi que minha mãe percebeu que eu realmente queria fazer isso, então ela me levou a um estúdio para uma entrevista de emprego. Eu consegui trabalho no H&L Records sob a orientação do Steve Jerome (GrandMaster Flash, Bobby O, Pet Shop Boys, NDA). Eles me contrataram por US$50 por semana para ser um runner (função abaixo do assistente). Eu comecei com os banheiros, com os chás, cafézinho, anotações, até que eu finalmente me tornei assistente, e então Steve Jerome me treinou e mostrou como ele gostaría que eu fizesse isso. Ele foi, essencialmente, meu mentor naquele tempo. Quando eu era jovem, por volta dos 13/14 anos, ele me mostrou o caminho das pedras, todo os passos disciplinados que se atrelaram à minha vida.

 

Eu li que você está trabalhando no Unique Sound Studios…

Bem, não vamos pular diretamente pra isso. Eu investi um bocado de anos ali, com Steve, com Hugo e Luigi e esse estúdio acabou sendo assumido pelo Sugar Hill Records, o que foi essencialmente o nascimento do rap. Então eu estava certo sobre o começo do rap, com Sugar Hill Gang em “Rapper’’ Delight”, GrandMaster Flash em “The Message” e “White Lines”; todos as grande gravações iniciais do rap foram feitas debaixo do teto de Steve, ou com Eric Thorngren. E eu estava lá pra tudo isso.

 

Mas que época boa! Então o Unique Sound Studios veio depois?

Naquele momento eu comecei a trabalhar de freelancer em Nova Iorque com alguns artistas, e então eu fui aprendiz pra conseguir um trabalho. Eu voltei para a base da cadeia alimentar, pra ser um assistente no Unique, porque eu o vi como o estúdio que ultrapassava as barreiras em Nova Iorque na época, em 82-83. Isso meio que acabou, por volta dos anos 87-88. E me tornei um assistente, depois staff, e basicamente meio que assumi. Tive alguns hits razoáveis e então, eu comecei a trabalhar lá. Fazendo o que eu queria.

Então foi uma espécie de evolução normal: você começou como um runner, depois um assistente e depois como um engenheiro, muito naturalmente.

Exatamente. Mas você pode sempre voltar de um engenheiro para um assistente. Isso ajuda a colocá-lo em seu lugar.

 

O fato de seus dois irmãos também estarem trabalhando na indústria, causou algum tipo de competição entre vocês?

É super simples. Meus irmãos trabalharam comigo; Jeff costumava fazer o som ao vivo da minha banda, Tommy costumava operar as luzes. Jeff começou primeiro como meu assistente e depois eu convenci o Tommy a não fazer mais o som ao vivo e virar o meu assistente também. Os dois começaram a trabalhar comigo e eu os treinei. Basicamente eu tinha que arrastar o Tommy, coloca-lo na frente dos outros assistentes esperando na fila para ser meu assistente, e o treinei antes. Então, havia competição? Não de verdade, porque eles são meus irmãos e trabalham juntos! (Risos) Não se tratava realmente disso, era sobre: “Tem muito pra se fazer, você quer esse show, então fala, ou aquele show, faça.” Eu não compito com minha família! (Risos) Mas absolutamente, eu tenho uma atitude muito competitiva perante todos os outros. Minha atitude é: “Melhor você dar o seu melhor, porque eu não vou desistir sem uma luta.”

 

Existem algum método de trabalho que você adquiriu nos anos 80 que ainda te servem hoje?

Bom, essa é uma pergunta interessante, porque a razão dos negócios terem mudado é que todos os engenheiros agora não foram educados com a disciplina severa de um mentor. Eles compram o ProTools, compram alguns plugins, comprimem alguma coisa e acham que são engenheiros de mixagem. E esse não sou eu sendo bravo ou depreciativo, é sobre: quer saber? Enquanto você não tiver limpado alguns banheiros, escrito milhares de anotações, ter sido obrigado a enrolar cabos, guardar microfones e ser completamente intimado em frente a todo produtor e artista que se pode, você não herdou suas asas pra sentar atrás da mesa. Não que eu acredite que o meu jeito é o único, mas eu acho que há um monte de gente que foi contratada que não merecia.
Assim, toda a experência, tudo compensa, mas você aprende alguma coisa todo dia. Não é apenas sobre ser engenheiro mas sobre ser uma pessoa e lidar com com as atitudes e relações com os artistas. O que você faz atrás da mesa é inútil se você não se sente confortável.
Eu tenho feito diversos seminários para mudar o rumo de gravações, reunindo estudante para uma palestra de 3 ou 5 horas comigo, por minha conta com a SSL, para descer e inspirá-los para lhes mostrar o caminho que faz sentido. E vejo quem quer se inspirar e quem não quer. E apenas tento incentivar a próxima geração no caminho certo. Estou trabalhando esse ângulo.

 

Você considera a educação como algo realmente importante. Você está fazendo muito para promover isso.

Sim, por exemplo. Eu ligo pro presidente da SSL e digo: “Olha, eu quero fazer um seminário para os estudantes de engenharia em L.A. (Las Vegas) e eu vou sediar no meu estúdio, por minha conta. Traga uma equipe de filmagem, traz os 30 melhores estudantes que puder e eu darei a eles 4 horas de uma conversa animada sobre mixagem, gravação e tudo. Isso é ótimo, aqui é o encontro, vamos fazer.” Agora, em L.A. e então eu digo: “Vamos mover de verdade e no próximo final de semana eu vou fazer outro no Power Station, em Nova Iorque, com outros 30 estudantes pela SSL.” E depois disso, eu vou pra Real World – estúdio de Peter Gabriel – e nós vamos fazer com uns 100 estudantes, lá. E falando em Paris, eu estou tentando orquestrar uma porque eu estou fazendo um seminário chamado “Mixando com os Mestres” em julho na La Fabrique. Então, eu vou tentar fazer alguma coisa com o Studio Guillaume Tell, que eu creio ser o grande em Paris, usando uma das grandes salas lá, levo os estudantes franceses ou suíços e faço um seminário lá. Eu só quero fazer em uma sala que tenha um grande console G, pra que eu possa mostra-los como eu mixo nele, e tenha uma sala grande o suficiente, onde eu consiga 30 ou 40 estudantes lá, para o dia inteiro, falando sobre o negócio todo e dando a eles toda a compreensão. (Eu provavelmente precisarei de um tradutor)

Você ainda acha muito importante mostrar aos outros como fazer isso e treinar as pessoas. Você sabe quantos assistentes já treinou ao logo dos anos?

Eu provavelmente só treinei 10 ou 15, mas provavelmente toquei mais alguns, porque se os assistentes ficam comigo, eles não querem desistir. Vamos colocar dessa forma, eles querem desistir toda noite porque eu sou muito irritante! (Risos) Eu tenho os melhores assistentes no mundo. Eles foram treinados ao ponto em que ninguém pode mexer com eles e eu dou a eles essa autoestima e atitude para ultrapassar completamente qualquer outro assistente no planeta. E essa é a mentalidade, porque os clientes que nós lidamos esperam perfeição, eles esperam de você 24 horas por dia. É um trabalho difícil, você precisa de uma vida também. Eu estou em serviço 24 horas por dia – e não é porque eu estou mixando o dia todo – mas porque os artistas estão pelo mundo todo e estão mandando e-mails e mensagens de texto, eles querem ser cuidados. É um pouco de pé no saco às vezes, mas quando Mick Jagger te liga, ou Bruce Springsteen ou David Bowie, ou alguém importante te liga ou te manda mensagem, você toma conta deles; é isso o que você faz. Não importa que garrafa de vinho você bebe ou onde você está. Não importa

Você consegue se lembrar da mixagem do seu primeiro hit de verdade? O momento em que você sai do estúdio e diz para si mesmo: “Uau, essa música foi muito, muito legal, ou, esse álbum foi muito legal e eu tenho muita expectativa dele”.

Eu diria que o primeiro momento foi quando, como assistente de Steve Jerome, nós gravamos e mixamos completamente uma música chamada “The Message”, do GrandMaster Flash, que se tornou seu maior hit. Acho que foi em 81 ou 79/80. Nessa situação, Steve mixou e eram 8 da noite, ele vai pra casa, e a banda ainda está por perto e estão tipo “Ei, por que você não mexe nisso um poco?” Então em terminei fazendo minha própria versão, e só o engenheiro de masterização sabe qual foi a que lançou – a minha ou a do Steve. É aí que cruzou um pouco a linha. Você é um assistente, isso significa que quando um engenheiro sai, você é o engenheiro. Então, quando a banda te pede para fazer alguma coisa, você não diz ‘não’. Meu primeiro envolvimento em, de fato, empurrar os faders em alguma coisa que se tornou grande, foi essa. Depois desse ponto, a que se torna óbvia foi “Living in America”, do James Brown, que foi um grande hit do Rocky, em 84 ou 85. Eu fiz a engenharia e a mixagem da coisa toda com Dan Hartman. Eu me lembro de ter feito a edição, a versão single de uma versão de 7 minutos do álbum, para 3 minutos e meio. Foi minha primeira tarefa, fazendo uma versão mais curta.

Você se lembra das suas primeiras mixagens – onde respeitava a visão do artista – mas ainda tinha a sua assinatura sonora ganhando vida?

A assinatura inteira foi criada e veio de Bob Clearmountain. Assim que ouvi as primeiras mixes do Bob… a primeira mix que escutei e gostei foi “Good Times”, do Chic. As pessoas não sabem que ele mixous as coisas do Chic. Elas acham que ele só fez do Bryan Adams e Bruce Springsteen, Huey Lewis, David Bowie, elas não se dão conta que algumas das coisas mais antigas eram maravilhosas. Nem eu percebi, na época. Eu era mais sobre o que ele fez com o rock. Para mim ele tinha uma assinatura no som de bateria. Logo depois da pancada, para mim foi o som de bateria e vocais que eu fui atrás; sendo tão bom quanto Bob, se eu pudesse estar no mesmo patamar que Bob, na época, é o que importava. Eu estava me esforçando para ser como o Bob. “BLB”: Essa é toda minha história! (Risos) Engraçado, sentado no jantar ontem, complementa o inverso, ele disse “Cara, você deve ser capaz de escolher qualquer coisa porque você está tão ocupado nesse momento.” E eu disse “Eu estou só tentando acompanhar você. Você é quem está fazendo Rolling Stones e Springsteen todo dia!” Eu acho que os sons específicos vêm de como você escuta, e estava fazendo a bateria mais alta do que deveria em todos aquelas gravações de hip-hop.

Tornar a bateria mais alta do que deveria ser é uma das primeiras coisas que vem à sua cabeca quando está fazendo a sua assinatura sonora?

Sendo um baterista, eu sempre ouvi a bateria muito na cara, como “Oh meu Deus, aqui vem eles!” Definitivamente algumas das minhas mixagens anteriores tem mesmo a bateria na frente. E ainda é o caso de hoje,  as gravações tem a bateria muito a frente.

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Traduzido por Karen Ávila e Breno Ozaki

Confira AQUI a entrevista completa em inglês.

Karen Ávila é colaboradora do Áudio Reporter, formada em Produção Musical pela Anhembi Morumbi. Atua como Free lancer em estúdios e shows ao vivo.

Sobre Karen Ávila

é colaboradora do Áudio Reporter, formada em Produção Musical pela Anhembi Morumbi e assistente do produtor musical Eduardo Pepato.

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