domingo , 15 setembro 2019
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Entrevista com Chris Lord-Alge – Parte 3

Continuando com a parte 3 da entrevista, Chris Lord-Alge fala sobre o ponto de vista técnico da profissão.

 

Se não leu a parte 1 e 2, confira os links abaixo:



Eu sei que agora você está situado no antigo Can Am Studios na Tarzana a um bom tempo. Além da SSL 4K, qual foi a razão para se mudar para esse estúdio naquela época?

Começou por uma simples questão de logística. Já morei na Tarzana, onde eu transitava entre Burbank e Hollywood para trabalhar. Eu não trabalhava em um estúdio meu, trabalhava em um estúdio de outras pessoas. Além de todo esse deslocamento, eu nunca conseguia estar em casa com a minha família por causa do transito… Já tinha trabalhado no Cam An nos anos 90, mixei o Damn Yankess e John Wetten (Asia, King Crimson), mixei também alguns álbuns entre 90 e 91. Um dia estava passando por lá e resolvi entrar para ver se o lugar ainda existia, mas é claro, o lugar estava precisando de manutenção e tinha um novo dono. Entrei em uma sala, dei uma olhada e wow, conversei com o dono e disse: “Gostaria de alugar essa sala”. No início funcionou como um aluguel, eu basicamente alugava a sala do dono, mas um dia pensei: “Não vou mais alugar isso, vou comprar tudo, vamos tirar esse cara daqui”. Depois de alguns dias conversei com o dono e disse que não dava mais para ficar alugando o estúdio, que iria comprar o estúdio inteiro. Dane-se. Comecei pegando o estúdio B, e assim que tive a chance, comprei também o estúdio A. Tinham algumas outras pessoas interessadas em compra-lo, mas eu passei por cima de todas. Meu consultor de negócios disse para o dono: “Olha, não me interessa como, mas estou comprando o estúdio inteiro”. Era simples. Ai pensei e vi que não precisava dos dois estúdios para mim, mas precisava ter controle de toda estrutura para ser minha e funcionar como eu queria. A melhor parte disso tudo é que o estúdio veio com o console que eu queria, só precisei conseguir alguns reverbs. Estou complemente satisfeito com ele.

Li que você ainda está usando alguns gravadores de fita 3348 para mixar. Você pode descrever um pouco o processo e as razões para usá-los? Você ainda está usando os 3348 para mixar?

Claro. Por exemplo, ontem a noite Bob estava comentando que está sem trabalhar com gravadores de fita à 5 ou 6 anos. Olha, eles pararam de produzir fita em 2008. Para mim o formato foi o melhor já inventado por que ele coloca sua música em um material solido que, uma vez que você printou a música ali em canais separados, aquilo não muda de formato. Então não existe abertura de sessão, não existe preocupações com HDs quebrando, está tudo em um pedaço de fita, é digital e eu gosto da maneira que ela soa e é tudo transferido digitalmente do ProTools. Então quando você pega a fita depois do álbum ter sido feito, ela está no mesmo ponto onde você parou quando terminou de mixar o álbum. Além de soar bem (que é a razão principal), você sabe que quando você for usar a fita novamente, ela vai estar exatamente igual. Meu processo de trabalho não é mais lento por causa disso, meu assistente prepara a próxima música enquanto eu termino a primeira. É um pouco antigo, mas não tanto. Em termos de som é ótima. Tenho várias fitas em branco. Sei que elas não vão durar para sempre, mas ainda gosto das qualidades que elas me oferecem.

Isso me leva à outra pergunta. Você tem 48 tracks na fita, eu imagino que você tenha algumas sessões de ProTools dos seus clientes, então seu assistente precisa fazer uma pré mix para caber tudo nos 48 canais… mas se por exemplo, há alguma coisa no stem das cordas, e você gostaria que seu assistente refizesse a mixagem do stem, como isso funciona?

Bom, é bem simples. Quando você quer modificar algo que está na fita, você abre a sessão, faz a mudança que quer e você grava em cima da fita. Digamos que na ponte da música você precisa de mais cordas agudas e menos cordas graves, você simplemente edita isso no ProTools e faz um punch in na fita e está pronto. Geralmente, até uma música de 200 tracks consegue ser reduzida sem ter que fazer muitos comps. E por comps, me refiro quando transformamos 4 canais em 2, ou 8 canais em 2, qualquer coisa. A maioria está ligada em conjunto, o que significa que dois canais entram em outros dois canais, e assim por diante. Nosso objetivo é fazer os comps sem muita preocupação para que as masters tape não sejam somente uma comp, nem só uma fita de stem. E também, nós temos as sessões originais. Então esse sistema funciona perfeitamente, até se algum dia nós quisermos abrir todos os canais.

Isso força o processo de mixagem a fazer decisões mais cedo, se o cliente não conseguir tomar essas decisões.

Sim, isso faz toda a diferença, por que torna tudo que você recebe, não importa o que, uma coisa gerenciável.

Quais monitores você usa?

Eu ainda uso 3 sets de monitores. Uso a NS10 original dos anos 80 com a potência original Yamaha 2002M e um subwoofer, que é o Infinity BU2. Eu tenho também as M&K ativas top de linha com 2 subs para dar um boost. E ainda uso um Sony ZS-M1 boombox que sai direto da mesa e fica no rack. Esses três pares são suficiente.

Então você tem algum controlador de monitores ou você usa o gerenciador de monitores da SSL?

Uso o que vem na mesa. Uso as saídas A/B, as saídas mini e as large. E também a boombox que sai direto da mesa. Então todas as vias saem direto do bus do console.

Eu tenho umas perguntas sobre os plugins Waves que você desenvolveu com os caras da Waves. Pode nos dizer algumas palavras sobre o processo de fazer isso, e como a idéia surgiu?

Tudo começou quando eles estavam lançando o plugin da SSL E Channel Strip, que é exatamente o que uso a 30 anos, desde que a SSL surgiu. Eles me procuraram e disseram: “Olha, você pode testa-los e dizer se soam diferente?”. Eu os ajudei a modificá-los e deixar o melhor possível, e esse virou o plugin mais vendido deles. Eu ainda os uso hoje em dia e eles são simples e exatamente o que eu conheço. Começamos com uma simulaçãoo de SSL, a qual eu fiz alguns presets, depois disso foi para: “Olha, vamos fazer copias, ou emular, meus 1176’s, LA3A’s e LA2’s por que eu uso todos os dias”. Então eles lançaram os CLA76, LA3, LA2, todos eles. Eles levaram os meus equipamentos para Tel Aviv por meses, pesquisaram eles, e fomos indo e voltando até que eles soassem distorcidos o suficiente, e eu fiquei muito feliz com o resultado. Eles distorcem como os verdadeiros. Assim que fizemos isso eles falaram: “Faça o seu próprio plugin”. Ai eu literalmente peguei um guardanapo de uma bebida com Mike Frades (gerente de produtos da Waves) em uma churrascaria e desenhei o design original dos meus plug-ins, que tem a aparência de uma mesa de mixagem com botões e tudo mais, muito simples para o usuário.

Eu tenho usado o CLA Bass e o Vocals e o som deles são realmente bons. É uma compilação de algumas das unidades e efeitos que você usa bastante como reverb, delays, presets pros reverbs, dobra de voz: essa é basicamente a cadeia que você usa nesses instrumentos?

Bem, o que estava tentando fazer era ter um plugin para o usuário iniciante para que eles precisassem ter apenas os meus plugins. E isso é tudo o que eles precisam, porque tem tudo que você quer dentro dele. O fato de você ter sends e returns é uma chatice depois de um tempo. Acredite em mim, eu sei, você tem que configurar os sends e returns e isso é complicado. Com os plugins, você pode simplesmente insertar em todos os canais e ter EQ, compressor, ganho, preamp, tudo isso em um plugin. Eu acho que esse meu objetivo foi conquistado. Olhe, se você quiser obter mais detalhes, então você pode pegar alguns plugins de delay separados. Ele foi realmente feito para ser usado em 80-90% da sua mix.

Você usa os seus plugins nativos também nas sessões do ProTools?

Claro. Se eu estou procurando por um dos efeitos que eu quero, uso meus plug-ins.

Então é você e os seus assistentes que usam os plugins na mixagem inicial durante o processo no ProTools. Você usa os plugins lá e então tudo é transferido para a 3348, e depois é você com a SSL e os equipamentos externos.

Exatamente!

 

Você trabalha lado a lado com os seus assistentes, você tem uma parceria especial com eles. Eles complementam muito o seu trabalho. Eu posso imaginar que eles são realmente importante pra você enquanto trabalha e devem ser muito bem treinados para deixá-los mixar os stems e coisas do tipo.

É claro. A coisa mais importante é quando os clientes estão aqui, eles querem experimentar e fazer algumas coisas, mover alguns vocais, fazer alguma edição, mover algum background. Meus assistentes apenas prestam muita atenção e fazem acontecer.

Os equipamentos externos que você usa, por exemplo o 1176 ou o LA3A, são insertados sempre nos mesmos canais e você usa sempre o mesmo track sheet para suas 3348, do canal 1 ao 10 temos a bateria por exemplo, depois o baixo, depois guitarras? Você sempre tem o mesmo padrão de trabalho?

 

Correto. A parte mais importante é fazer a musica funcionar. Então se você tem que descobrir de onde todas as partes estão vindo na mesa, dificulta o trabalho. O que faço é tirar tudo que pode dificultar meu trabalho da frente, então tudo que faço é focado na música em si. Quando você procura onde os canais de bateria estão, eles estão sempre nos mesmos faders. Eles não tem sempre o mesmo som, mas eles estão no mesmo lugar. Se você é chef de cozinha, você sabe onde suas facas estão, você sabe onde encontrar a farinha, sabe onde estão as tábuas e as panelas. Quando você quer fazer um prato criativo, você sempre sabe onde estão suas ferramentas, mas o prato sempre sai diferente. Essa é a idéia.

Vamos voltar aos instrumentos um pouco. Pode nos descrever o que você usa para instrumentos de rock? Como bateria, baixo, guitarra, teclado… O que você usa na maior parte do tempo de equipamento externo na bateria, por exemplo?

A primeira coisa que você faz é levantar todos os faders e encontrar onde a música está. Se solar a bateria, eu tiro toda a compressão, então começo a equilibrá-la sem compressão. Literalmente. E eu vejo quais samples eu preciso adicionar para tornar a bateria mais viva. Então eu vejo se posso continuar sem compressão. Assim que você começa a colocar os outros instrumentos, se a bateria não está falando o bastante, eu digo “Ok, eu tenho que comprimir os overheads, ou eu tenho que comprimir os room tracks”. Eu tento fazer a menor quantidade de danos, eu posso começar comprimindo muito, mas ai tudo começa a soar sem graça. Eu tento o mínimo no começo, ai vou adicionando um pouco por vez. Muito vem da quantidade de sala ou reverb eu estou usando. Tenho 6 reverbs diferentes e eu vou adicionando eles a gosto. Não é tipo: “Ok, vou usar esse reverb na caixa”, é mais: “Vou usar esses 4 reverbs na bateria ou esses 6 reverbs que estão todos em um send”. É um arco de opções, tenho 14 reverbs diferentes setados no total, e eu vou os testando de acordo com a parte da música, como: “Esse está funcionando bem para o refrão, esse funciona bem para os versos”. Não é uma ciência exata, mas eu sempre me encontro usando reverbs digitais, compressão analógica e EQs da mesa, além do meu par de Pultec’s ajudando o bumbo e a caixa. Então definitivamente usamos algumas técnicas antigas.

Falando de reverbs, quais são os seus reverbs favoritos?

Meus favoritos são o EMT246, Yamaha Rev1 original, Sony DRE2000 e o EMT252. Os Lexicons que eu uso são o 224 e o 480 originais, que tem seus sons próprios. Depois há os mais novos, o Bricasti M7, que provavelmente é o único reverb novo que uso. Mas também uso um reverb AMS, o Ursa Major Space Station, que não é exatamente um reverb, é algo no meio termo. E depois há também o Eventide SP2016. Eles são todos ligados juntos, todos sendo usados. As vezes eu uso 4 ou 6 deles ao mesmo tempo. Eles estão todos configurados do jeito que eu gosto, algumas vezes só ajusto o tempo deles. Realmente não existe nada melhor que o reverbs digitais originais.

Se você está usando até 6 reverbs na bateria, eu posso imaginar que você faz o mesmo nos vocais…?

Os vocais tem suas próprias linhas de delays. Os vocais tem 6 delays que eu posso usar, e em 4 canais diferentes do slap, que eu posso usar como um pacote, depois as dobras de vocais e em seguida reverbs específicos para voz. Eles tem seu próprio arsenal de coisas. Entre os reverbs de voz e o reverb de bateria, que abrangem tudo.

Falando sobre os equipamentos externos, existem outros além do 1176 e o LA3A que você usa o tempo todo? Como o Pultec?

Existem sempre dois Pultec’s funcionando, todos os delays e reverb setados, sempre enviando, sendo somente uma questão de o quanto você retorna. Algumas músicas eu volto e penso: “Caramba, estou usando somente três compressores nela”, e algumas músicas eu volto e vejo que estava usando 23 compressores e outras músicas que tudo que precisei foram 8 reverbs para funcionar. Tudo depende da música em si. Tendo todos esses faders disponíveis, aqui está um pouco de sabor, aqui está um pouco de reverb, aqui um pouco de delay. Você só da textura. É como um sous-chef (risos).
E quanto a novos equipamentos? Você já viu algum equipamento novo que fez você sentir que quer tê-lo? Novos compressores? Novos EQs que foram lançados?

Em relação a novos compressores, a Shadow Hills está lançando alguns novos compressores. Uso vários deles, o compressor de masterização e os da linha 500. Steve Firlotte faz seus próprios compressores Inward Connection, eu uso os novos, os FETs. Eu cheguei a construir meu próprio 1176 com minha equipe técnica, eles soam como novos. Os que eu uso batante são os Retro 176’s, que são novos. Esses novos limiters valvulados são ótimos.

E sobre o Vac-Rac?

Sim, o Vac-Rac é relativamente novo. Eu uso o novo e o velho. Claro que há alguns delays e reverbs novos que uso, como o Line6 EchoPros que são ainda relativamente novos, o TC reverb e tudo mais. Todas essas coisas são novas.

Qual é o processo da cadeia no seu mix bus? Você tem algum compressor e EQ insertados no mix bus ou você exporta a track com o compressor ligado?

Bem, sua mix é sua mix. O compressor foi construído dentro, você nunca vai descolá-lo e desligá-lo, e eu não estou realmente comprimindo muito. Tanto o compressor Shadow Hills de masterização no bus ou o Focusrite Red3, que é um Red3 original, que tem um serial number bem baixo, um dos primeiros fabricados. O som dele é diferente dos novos. Para EQ, eu tenho alguns Pultecs de masterização que eu uso no meu mix bus, então a mix inteira passa por válvulas e transformadores.

Como você exporta as mixagens? Você exporta as sessões do ProTools em qual conversor? Quantas versões você pode fazer?

São sempre 6 versões e sempre exportadas pela Apogee Symphony em 192kHz

Ok, então você faz a mix principal, playback, instrumentos…..

Faço a mix principal, só vocal, TV track, instrumental, também faz acapella, e só backing vocals. E então, não importa qual versão você tem; se houver uma única edição, há seis versões disso. Se houver uma edição mais longa da música, há seis versões dela. Se houver uma edição sem palavrões, há seis versões. Então tudo se torna seis. Desta forma, o artista tem um instrumental pra TV que combina todas as configurações que você tem.

Só para terminar esta entrevista, você tem alguma citação de uma frase sobre música que gosta de usar?

Uma das cosias que dizemos no estúdio é “Não tente isso em casa!” (risos). Tudo o que eu tenho aqui não vai funcionar em casa. Isso realmente significa estar num lugar apropriado, em um templo do som. Não na sua garagem. Para mim isso não funciona!

 

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Traduzido por Karen Ávila e Éric Yoshino

Confira AQUI a entrevista completa em inglês.

Karen Ávila é colaboradora do Áudio Reporter, formada em Produção Musical pela Anhembi Morumbi. Atua como Free lancer em estúdios e shows ao vivo.

Sobre Karen Ávila

é colaboradora do Áudio Reporter, formada em Produção Musical pela Anhembi Morumbi e assistente do produtor musical Eduardo Pepato.

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