domingo , 15 setembro 2019
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Dirija o músico – Dicas do Paulo Anhaia #1

 

Resolvi escrever uns textos dando umas sugestões simples, mas que podem te ajudar muito nos seus resultados. Esse será o primeiro deles

 

01 – Dirija o músico

Esse é um erro recorrente. As pessoas acreditam que hoje, dento do computador, tudo é possível de ser resolvido, e sim, posso dizer que quase tudo é possível, mas como dizia o elevador do Pica Pau: Você tem certeza que essa viagem é realmente necessária?

Quando você está produzindo um artista a parte musical também é de sua responsabilidade, e não se engane, a parte musical faz mais diferença no resultado final do que qualquer outro fator.

Se o baterista é ruim de tempo, mostre a ele como trabalhar com um metrônomo, faça com que ele treine em casa, em ensaios e só depois de ele estar familiarizado com o metrônomo comece a gravação.

 

Todo baterista precisa tocar com metrônomo?

Claro que não. Várias bandas bem sucedidas (Beatles, Zeppelin, Queen, Iron Maiden) raramente usaram um metrônomo, e nunca precisaram disso para que suas músicas tivessem uma boa pulsação.

Você, como produtor, deve julgar o momento em que usar e em que não usar. É sua responsabilidade.

Você pode pensar, ah, mas o músico quer gravar logo, não temos tempo para ele se preparar assim…

Ok, faça o que achar que deve fazer, mas ao invés de passar horas editando uma bateria pra ela ficar no grid, você pode tocar sua guitarra, sair com a sua família, com seus amigos, fazer um churrasco… A vida é mais legal quando fazemos isso, ao invés de ficar horas editando uma bateria mal tocada porque ninguém orientou o batera a tocar direito.

Falando nisso, o produtor não é responsável por ensinar músicos a tocar, pra isso existem os professores de música, mas ele tem sim que orientar o músico no que achar necessário. Quando necessário eu indico professores de música, converso com esses professores sobre o que acho que deve ser melhorado e fazemos um trabalho conjunto pra preparar o músico para a gravação.

Outra coisa importante é a pegada.

Se você der algumas instruções simples pro músico, muita coisa pode soar muito melhor.

Por exemplo, pegada de caixa:

“Cara, tá soando legal, mas se liga no seguinte, toda vez que você volta de uma frase, sua caixa vem mais fraca, e aí, depois você pega o jeito dela. Se concentra nisso, deixa ela com um som bem constante pra gente”

Você sempre pode substituir as caixas mais fracas por outras mais fortes, ou então usar um sample de caixa, mas voltamos a questão de ter “uma vida além do mouse”, inclusive, posso garantir que um músico com uma boa pegada soa melhor do que qualquer artifício que você possa usar.

Estou falando de bateria porque ela é a fundação da música popular. Com uma bateria bem gravada (e nisso leia-se, com um baterista bem dirigido) boa parte do jogo está ganho.

Quantas vezes eu já emendei um take de bateria porque o batera insistia em correr quando fazia frases… “Véio, você está correndo nas frases… Pense ‘pra trás do tempo’ toda vez que for fazer as frases, ou exagere os movimentos pra que eles fiquem mais lentos e assim caiam no tempo certo”

No entanto essas questões não se aplicam somente a bateria. Pegada, tempo e afinação são fundamentais quando se quer um bom som. Não se engane, quem faz o instrumento, seja ele qual for, soar afinado  e soar bem,  é o músico. Coisas que estão no tempo soam melhor do que coisas que estão fora do tempo. E a pegada então, é responsável por 80% do resultado sonoro. Em alguns casos, até mais.

 

Se o baixista pega leve numa parte da música e isso está fazendo com que as notas dele não definam, oriente-o. Mostre onde está a falha e dê sugestões de como melhorar o resultado.

Se o guitarrista está deixando soar cordas que não deveriam estar soando (um exemplo tosco é o mizão da guitarra durante um acorde de D) avise-o, mostre como resolver.

Se o tecladista está colocando mais notas do que o necessário, oriente-o. Mostre que ele é parte de um todo, e que para o som dele aparecer, ele tem que se encaixar no arranjo. Nem sempre o que soa bem sozinho soa bem com a banda. Mostre a ele como se toca em conjunto.

Se o vocalista está cantando muito suave onde é pra ele soltar a voz, ou o contrário, oriente-o. Faça com que ele cante de uma forma que “soe como um disco”, com que a voz dele esteja presente e dando a interpretação correta em cada momento da música. Afinação e tempo também são essenciais. Se necessário emende trecho por trecho até soar como deve soar (você é o cara que deve saber como deve soar, você é o produtor, né?

 

Tire do músico o máximo que puder,

…em termos de som, de interpretação e de “perfeição técnica coerente com o estilo em questão”. Uma banda de prog metal deve soar como uma banda de prog metal, uma banda punk deve soar como uma banda punk.

Faça as melhores tomadas que puder fazer, repita e emende o quanto for necessário. Só depois disso, edite o que achar que pode soar melhor.

Você vai ver que fazendo isso terá um resultado mais agradável, terá mais tempo pra você (sim, dirigir o músico demora menos do que editar tudo o que estava errado) e será uma pessoa mais feliz, hehehe Sem contar que o músico se tornará um músico melhor após o processo de gravação, e as dificuldades resolvidas na primeira música podem te ajudar nas próximas músicas e também nos próximos discos do mesmo artista.

Já fiz discos inteiros sem edição digital, sem colocar notas no tempo, sem afinar vozes digitalmente, e alguns desses discos servem de referência pra muita gente até hoje.

Isso é só uma dica, mas sim, ela é muito valiosa.

Beijos a todos!

Sobre Paulo Anhaia

Músico desde 1984, produtor desde 1994, ministra cursos de produção e áudio desde 2010. Continua tocando, compondo, produzidno, gravando, editando, mixando e masterizando. Contato para trabalhos contato@pauloanhaia.com.br

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